quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Arroio Araçá na memória dos Quilombolas

SOB AS LAJES DA AVENIDA INCONFIDÊNCIA
JAZ SEM LÁPIDE O ARROIO ARAÇÁ.
MEMÓRIAS QUILOMBOLAS EM CANOAS/RS


Profa. Dra. Elsa Gonçalves Avancini
Professora de graduação em História e
do Mestrado em Memória Social e Bens Culturais
Centro Universitário La Salle,Canoas/RS

RESUMO
Este trabalho pretende registrar parcialmente uma memória ambiental do Arroio Araçá cujas águas correm parcialmente sob as lajes do canteiro central da Avenida Inconfidência no centro de Canoas. O Arroio Araçá atravessa a cidade desde suas nascentes no Bairro Guajuviras até desaguar no Guaíba, próximo a Ilha das Garças, num local não muito distante de onde a CORSAN recolhe a água que abastece a cidade.
Em algumas áreas como a dos residenciais Hércules e Bela Vista o arroio está a descoberto, apresenta mata ciliar, com árvores frutíferas, ao lado de uma ativa fauna, onde se destacam aves silvestres, capivaras, tartarugas, gambás... As águas de suas nascentes tímidas e cristalinas no Guajuviras parecem iniciar temeroso o seu trajeto, pois encontram obstáculos interpostos à sua passagem obstada por lixos e entulhos jogados de suas margens. Parcelas da população local, carentes de educação ambiental, ignoram o papel e importância das fontes e dos arroios na formação dos rios de onde retiramos água para nossa sobrevivência.Outra parte do Arroio está coberta por lajes e muitos talvez não saibam que sob o local, as águas correm escondidas do sol, sufocando a vida no seu ecossistema. No Bairro Marechal Rondon o Araçá apresenta duas realidades: na Avenida Inconfidência, a partir da Av.Ulbra/Açucena, em seu entorno, possui área com difícil acesso, com mata densa; e a partir da Rua São José o arroio está coberto, com seu entorno totalmente pavimentado, até a BR 116.Para os que ignoram esse fato apresentamos uma memória da presença desse Arroio por parte de uma comunidade que sempre viveu às suas margens, a comunidade do Quilombo Chácara das Rosas, cujos membros mais velhos contam muitas histórias da presença do Araçá em suas vidas, desde a chegada de seus patriarcas João Maria Genelício de Jesus e dona Rosalina Correia dos Santos que ali passaram a viver a partir dos anos 40 do século XX. Hoje o Quilombo Chácara das Rosas já recebeu sua propriedade coletiva titulada pelo governo federal, o Arroio Araça, contudo, aguarda ainda o despertar da memória social da comunidade canoense para a proteção dos seus bens culturais e ambientais, preservando o rico patrimônio que essas memórias lembram e que ainda subsiste parcialmente na travessia da área do município de Canoas.

PALAVRAS CHAVE: Quilombo urbano, Arroio Araçá, memória e patrimônio ambiental.


INTRODUÇÃO
De acordo com entrevistas por nós realizadas junto à comunidade e as descrições do Laudo Pericial do INCRA, os habitantes da “Chácara” são descendentes dos filhos de Manoel Barbosa dos Santos, fundador da Comunidade Quilombola Manoel Barbosa de Gravataí. O grupo canoense se originou do casal João Maria Genelício de Jesus e Rosalina Correia dos Santos que, segundo relato dos seus herdeiros, teria adquirido o terreno da Chácara por volta de 1940. Esse terreno hoje situado entre a Rua Duque de Caxias, nº947, e a rua D. Rafaela, têm 22,40m de largura por 1.65m de comprimento (OLIVEIRA,ET al. 2007, p.115), onde nasceram os filhos mais novos de João Maria Genelício de Jesus e Rosalina Barbosa de Jesus: Gabriel (1952), Antônio de Jesus (1946) e Miguelina de Jesus (s.d.). A maioria ainda residente no terreno, juntamente com seus filhos e outros parentes agregados ao núcleo de quase 30 famílias que hoje vivem no local.
De acordo com as narrativas de seus descendentes e levantamento feito pelo laudo antropológico do INCRA o senhor João Genelicio de Jesus era natural de Gravataí, onde era cortador de lenha e carreteiro. Trabalhava no corte de lenha e no transporte de outras mercadorias, costumando viajar seguidamente para Canoas, onde adquiriu o terreno no qual um dia veio morar com sua esposa Rosalina e quatro filhos. Isto por volta de 1946, pois Maria do Carmo (1936) lembra que deveria estar com nove anos, sua irmã Maria Abrelina Genelício (1931) com quinze, Inácia com doze e João dos Santos Genelício (1939) com sete (CARVALHO, 2003:83-84), e entrevistas constante do acervo do Museu e Arquivo Histórico La Salle (MAHLS).

MEMÓRIAS DO LUGAR: A CASA, O QUINTAL E AS CERCANIAS
Conforme Catroga a memória é seletiva e por isso adotamos como estratégia desse escrito ir destacando algumas temáticas que se mostraram recorrentes nos relatos como a descrição do meio ambiente e do lugar, como era e como está hoje.
Dentro da perspectiva coletivista que marca a comunidade remanescente as primeiras entrevistas transcorreram em conjunto e dela tivemos que registrar uma memória de campo dos pesquisadores, feita na tentativa de acompanhar tantas evocações brotadas no coletivo. Posteriormente agrupando-os dois a dois para gravar as entrevistas, pudemos registrar esses diálogos de memórias e sua busca de localização no tempo e no espaço. As descrições da paisagem local emergem desses relatos onde estão presentes de forma marcante as lembranças do antigo Capão do Corvo e do Arroio Araçá canalizado pelas obras da Rua Inconfidência na década de sessenta do século XX.
O Capão do Corvo, hoje parte do Parque Getúlio Vargas, é um dos muitos capões de mato que verdejam sobre as coxilhas canoenses, situadas entre três tributários do Guaíba: o rio Caí, o Sinos e o Gravataí. É uma zona de muitos pântanos que se inundavam por ocasião das enchentes, e de arroios como o Araçá, o das Garças, o Arroio Sapucaia e o Arroio da Brigadeira cujos nomes contam um pouco da história da ocupação desse espaço. Desde o final do século XVIII, quando aqui chegou seu primeiro povoador europeu Francisco Pinto Bandeira que se instalou às margens do Arroio da Brigadeira como ficou conhecida pelo nome de sua nora Josefa Eulália que lhe sobreviveu e a seu esposo o Brigadeiro Rafael Pinto Bandeira.
A presença dessas muitas águas que abraçam a cidade povoa os sonhos e os pesadelos das populações canoenses, pois a cidade foi construída não sobre as terras altas da Estância como sabiamente escolheu para sua sede Francisco Pinto Bandeira, mas sobre as zonas baixas e alagadiças, que se ofereciam como terrenos mais baratos (PENNA, 1997, p.17) aos migrantes pobres provenientes do interior do estado e onde as companhias de colonização estabeleceram seus loteamentos.
Dentre as descrições do lugar vieram muito fortes as impressões da infância e do cotidiano da vida nesse período e da paisagem, quando o quintal possuía um mato de eucaliptos, árvore cuja origem talvez esteja em outros sítios onde seu João havia feito outro mato com essa árvore. Seu Antônio, irmão de seu João relata: “o cunhado, marido da Inácia, plantou os eucalipto da fazenda da viúva do Seu. Valdemar, e acho que é de lá que ele trouxe para cá. No curral em frente, tinha mato de eucalipto ali onde tem as casa bonita (...)”. (2004). Essas casas bonitas a que seu Antônio se refere são as novas residências dos condomínios hoje construídos no entorno da área do quilombo, que ficou restrito ao local de suas moradias, embora hoje o plano diretor atual da cidade que incluiu a área do quilombo, lhe preserve uma distância de vinte metros para construções lindeiras.
Nessa mesma rememoração seu Antonio recorda a presença de elementos da fauna como os passarinhos da época de sua infância nos anos 50 e 60: “tinha sabiá e saíra. Tinha uma frutinha vermelha que os passarinhos vinham comer” (2004).Jorge Gabriel de Jesus (1952) lembra a presença das árvores frutíferas do quintal que “além de um mato de eucalipto, tinha butiazeiro, laranjeira, coqueiro e três pés de limoeiro” (2004).
Os eucaliptos também são lembrados por Edson, filho de seu João e Glaci, que fala de sua existência no antigo Capão do Corvo que era propriedade dos Irmãos lassallistas. Edson recorda como era a antiga paisagem onde hoje se situa o atual parque Getúlio Vargas: “...era dentro do jardim do lago, onde tem os patos era a piscina, tinha um vestiário um do lado do outro, tinha um trampolim tinha uma escada que ia de um lado ao outro. Os padres venderam o lugar onde eles moravam”. (2004). Edson Genelício de Jesus (1966) relata que a gurizada adorava pular os muros e tomar banho na piscina, recorda “que primeiro eles não deixaram usar a piscina, depois permitiram que a gente tomasse banho” (2004). Relata também que os Irmãos tinham cães de guarda e conta orgulhosos como o viralata da comunidade, um dia, os defendeu contra eles:
...um cachorro que corria o pessoal, pois eles tinham pomar no internato. Uma vez os cachorros tiraram um pedaço da perna de um guri (...) eles me atacaram, uma vez, eram três cães, nosso vira latas é que nos defendeu. Era o "tosinho", era o campeão daqui. Ele pegava os outros cachorros e atirava no valo. (2004)
Outra recordação do mato daquele tempo vem de Jorge Gabriel o mano mais velho. “Na rua dona Rafaela as tropas que entravam vinham da rua -uma liberdade -, passava pelo "capão dos padre" tinha um cemitério dos padres no fundo do zaffari, aqui era só mato”. (2004). Outra filha de seu João Genelício e dona Glaci Goulart, Isabel Cristina Genelício (1976), recorda o mato pelo qual passava quando era pequena, e que lhe inspirava certo temor, mas apesar disso relata: “andava tudo aqui sozinha e, hoje, não tenho confiança de deixar a minha filha ir à escola. Eu vou levar”. (2004). Segundo Isabel antigamente o parque era lugar de passeio, agora abriga outros perigos como a presença de pessoas viciadas no uso de drogas. “Hoje o medo não é do mato, mas dos muros altos que a gente não sabe o que tem atrás. É muita gente estranha, por isso eu busco e levo a minha filha” (2004). (grifos nossos).
O relato de Isabel mostra a mudança havida na sua representação do medo em relação à paisagem que agora mudou. O processo de urbanização da “cidade nova” como eles constantemente referem a respeito dessa parte do centro que cresceu em direção ao Bairro Rondon e a N.S. das Graças.
A paisagem natural preservada no mato do Capão do corvo, depois Parque Getúlio Vargas, foi acompanhada pela ampliação das construções urbanísticas, ruas, casas e condomínios horizontais que trouxeram consigo uma nova população de outra condição social, mas com a qual não há diálogo, são desconhecidos com outros costumes e é nesse desconhecido escondido sob muros altos que ela projeta agora a representação do medo. Medo esse mais ameaçador e real do que o receio infantil que poderia ter do mato, o que não a impedia de circular sozinha no território familiar.

MEMÓRIAS DO 'VALÃO': AS MUDANÇAS NA PAISAGEM
Outra lembrança muito forte da antiga paisagem vem de um “sangão”, hoje canalizado no Cristo Redentor: “Nós tomávamos banho no valo do Cristo Redentor ali tinha um açude -o valo estreitou- ele era mais aberto. Agora o valão é esgoto e taparam. Nós chamávamos de "sangão". Ele formava "uma bacia". (GENELICÍO, Antônio. 2004).
Sobre o valão seu Antônio tem muito a dizer, pois a gurizada costumava tomar banho nele e ele tinha até uma cascatinha que todos curtiam.

http://picasaweb.google.com/arroioaracacanoas/TrajetoDoAraca#5236714312616269858

Até mesmo Isabel a sobrinha de Antônio tem lembrança disso: “Tonho, ...não nadava... um pouco caia... dentro do valo. Lá saia, tudo molhado... assim por diante, ajudava – complicado- a resgatar, tirar as crianças que caíam na água...” (2004)
- O “valo da draga”, como seu Antônio o denomina, era ali onde tem aquela ponte que passa sobre a canalização. E ele procura explicar porque o valão era chamado valo da draga:
...era o valo da draga, aqui não tem uma pontezinha,? Perto da pontizinha... Ali, ia até o tênis clube na faixa federal. Lá era só draga né, era o valão da draga. (...) nós chamávamos valo da draga, por que ela fazia a limpeza.,. (...) a draga ficava na entrada dos padres, por que... Uma retro-escavadeira não faz todo aquele serviço, mas. A retro-escavadeira não é que nem a draga, vai lá diante assim, levantava atrás, é a retro-escavadeira, só pra limpeza. (2004)
Nesse valo seu Antônio conta que além de tomar banho, fazia muitas pescarias: pegava peixes: “jundiá, traíra, cará, muçum, pois o pessoal daqui gostava muito de muçum”.
Seu Antônio recorda o alarido das crianças quando, certa vez, voltou da “draga” com uma fieira de muçuns: “a última vez que tive na draga, acho que faz. uns três, quatro anos, eu peguei sete muçum...seis... oito... (...). trouxe uma... fiada, as crianças gritavam, chegava perto das crianças e fazia assim háaa, e elas saiam correndo...” (2004)
E como todo bom pescador seu Antônio fala do tamanho de seu pescado: “éh!. eu já tive aqui no zaffari, tive no mercado, ali vende também..., mais olha.., sinceramente. eu peguei dois grandão assim..., a coisa mais horrível, grandão..., mais olha da medo quando a gente vai puxar ele...” (2004).
Agora seu Antônio diz que ali onde era o lago do Capão do Corvo está tudo diferente: “ali pra dentro botaram, um não sei que bicho... que botaram ali..., a senhora já viu ...pra dentro... como ta aquilo ali..., pois botaram capivaras e ganso no parque” (2004). Isabel também mostra estranheza em relação aos novos bichos: “só que tem... que cuidar que ele corre atrás... né... eles são danadinho... ( ) ...quando ganso começa a “ latir” pra gente, ganso... parece cachorro...” (2004).
D. Glaci relata que o valão era onde fizeram uma pracinha na Inconfidência , no canteiro central, sob cujas lajes correm o Arroio Araçá, evocado pela comunidade já durante as obras da canalização conforme relata seu Antonio a respeito da draga. Isabel relata que: “quando era pequena se podia ver daqui lá no cristo, era um prédio marrom com bege. Era um campo todo coberto de cactos. A cachoeira, o valão a água era tri boa”. (2004). Então, segundo D. Gaci, o valão não era sujo. Isabel relata “que com a invasão do Guajuviras a sujeira veio toda para cá. Lembra também que tinha uma pontezinha para atravessar o valão. “Fico triste de terem estragado o valão”. (2004).
Sobre as brincadeiras Dona Abrelina também recorda os banhos no Arroio: “Tomávamos banho lá. Era proibido. No verão nós saia correndo um atrás do outro, íamos pra lá toma banho. Era muito tranqüilo lá ...” (2004).
Outro relato importante de Gabriel, João e Tonho é a respeito do Colégio Edgar Fontoura, sua paisagem, suas professoras e a disciplina da escola:
...onde era o coleginho era banhado. (...) tinha maricá. Agente ia ao colégio Edgar Fontoura, às vezes agente ficava de pé porque não tinha lugar. Aquelas professoras é que eram boas. Professora Odita, Elaine e Alba. Naquela época não tinha ajuntamento na frente da escola. (2004).
O banhado nessa descrição lembra mais uma vez as zonas alagadiças desses terrenos baixos cercados de rios e arroios, aonde vieram se localizar a maior parte da população urbana de Canoas nos anos pós guerra.
Vemos como as memórias da comunidade negra do Quilombo trazem essas lembranças da paisagem do Araçá, fornecendo dados sobre sua flora e fauna, hoje revisitadas pela comunidade nas atividades de preservação desenvolvidas pelo Projeto Arroio Araçá Nosso Rio Guri. O nome do projeto faz uma alusão a Mário Quintana cujo poema se refere a um arroio como um rio guri na medida em que essas muitas fontes pequenas nutrem os grandes rios.
O patrimônio ambiental focalizado nesses depoimentos de memória como elemento imaterial configurador de um território cuja existência ultrapassava em muito os meros limites do terreno urbano pelo qual estão prestes a receber titularidade das mãos do presidente da República. De outro lado é através dessas memórias que a comunidade quilombola e a comunidade canoense se aproximam na medida em que as águas do Araçá, na sua trajetória interior pelo território da municipalidade, povoam também a memória de moradores de outros bairros da cidade.

FONTES BIBLIOGRAFICAS

AVANCINI. Elsa Gonçalves, FRANÇA, M.C. Famílias remanescentes do quilombo Manoel Barbosa: o caso da descendência de Jerônima. Anais eletrônicos, VII RAM, GT 33, Porto Alegre. 2007
_. AGUILAR, Maria do Carmo. Chácara da Rosa, comunidade quilombola em Canoas. Memória e Território. CONGRESSO ALADAA, GT TERRITORIOS NEGROS E CONFLITOS SOCIAIS 2008.02.
CARAVALHO, Ana Paula Comim. Do “Planeta dos Macacos” a “Chácara das Rosas”. De um território negro a comunidade quilombola. (org.) SILVA, Gilberto Ferreira, SANTOS, José Antonio dos, CARNEIRO, Luiz Carlos da Cunha. RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008, ISBN 978-85-7430-742-8, p.220-230
CATROGA, Fernando (org.). Memória e história. In: Pesavento, Sandra Jatahy, org. Fronteiras do milênio. Porto Alegre: Editora da Universidade, 2000.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Centauro, 2006
OLIVEIRA Vinicius Pereira de. RODRIGUES, Vera Oliveira O ontem e o hoje de uma luta quilombola. Relatório Antropológico e Histórico de uma comunidade negra em Canoas/RS. Porto Alegre FURGS/INCRA-Rs, 2007.
http://picasaweb.google.com/arroioaracacanoas/TrajetoDoAraca#5236714312616269858

FONTES ORAIS
PINTO, Abrelina Genelício; GENELÍCIO, Maria do Carmo. Pesquisa: Afrodescendentes de Canoas: Os remanescentes do Quilombo de Manoel Barbosa. Canoas, Unilasalle, out. de 2004. Entrevista concedida à Elsa Gonçalves Avancini.

GENELICÍO, João dos Santos; SANTOS, Glaci Genelicío, e Edson Genelício. Pesquisa: Afrodescendentes em Canoas: Os remanescentes do Quilombo de Manoel Barbosa. Canoas, Unilasalle, 10 de ago. 2004. Entrevista concedida à Elsa Gonçalves Avancini.

GENELICÍO, Antônio; GENELICÍO, Isabel. Pesquisa: Afrodescendentes de Canoas: Os remanescentes do Quilombo de Manoel Barbosa. Canoas, Unilasalle, 10 de set. 2004. Entrevista concedida à Elsa Gonçalves Avancini.

GENELICÍO, Antonio; GENELICÍO, Edson; GENELICÍO, Gabriel; SANTOS, Glaci. Pesquisa: Afrodescendentes de Canoas: Os remanescentes do Quilombo de Manoel Barbosa. Canoas, Unilasalle, 24 de abr. 2004. Entrevista coletiva concedida à Elsa Gonçalves Avancini.
Plano Diretor da Cidade

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Araçá no encontro das águas no Guaíba


Encerrou-se nesta segunda-feira - 12/10/09 - a 16ª Romaria das águas do Guaíba.

O Rito das águas é o momento do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida com as águas das nascentes de rios e arroios que formam o grande lago. Reunidas num recipiente as águas coletadas em vários locais nas cidades da Bacia Hidrográfica do Guaíba, foram abençoadas por representantes de várias religiosidades, e encaminhadas para serem entregues ao manancial com nosso compromisso de cuidar de seu ecossistema.

As águas das nascentes do Arroio Araçá, coletadas na Fazenda Guajuviras e na Fonte Dona Josefina, foram entregues por Bianca e Fernanda da Casa de Caridade Pai Thomé e Adoli da Pastoral da Ecologia da Igreja Imaculada Conceição.


Vejam mais notícias nos links abaixo:




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Fonte Dona Josefina recebe Nossa Senhora das áGUAS


Integrantes da Casa de Caridade Pai Thomé, em Romaria pelo CEUCAB/RS Canoas, realizaram neste sábado 19, na Fonte Dona Josefina, orações e cânticos e uma caminhada com a réplica da imagem de Nossa Senhora das Águas que estará chegando em Canoas no próximo sábado - 26/09 às 15 hs.

Crianças e Jovens estão envolvidos no movimento que busca divulgar nas cidades seus mananciais e sensibilizar para o necessário e urgente cuidado com eles.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Água na Religiosidade


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

+CANOAS encarte ZH 28/08/09 - Artigo


sábado, 22 de agosto de 2009

Arroio Araçá na memória da Comunidade Quilombola de Canoas.

Relatório de uma comunidade negra em Canoas/RS - Chácara das Rosas: o ontem e o hoje de uma luta quilombola - Projeto FAURGS - INCRA/2006.
Elsa Avancini, professora, Doutora em História, estuda a situação dos quilombolas no Brasil, e em Canoas sobre a Chácara das Rosas, fala em entrevista da relação desta comunidade quilombola com o Arroio Araçá.
"Enquanto um bairro nobre vai se constituindo numa zona até poucos anos esquecida em Canoas, uma comunidade quilombola ali estabelecida aumenta sua luta por reconhecimento do seu espaço e dos seus direitos. É a comunidade Chácara das Rosas. A IHU On-Line entrevistou, por telefone, a professora Elsa Avancini, que estuda a história do Brasil e da África e a situação dos quilombolas no país e, há alguns anos, apoia a Chácara das Rosas, que está quase finalizando, com sucesso, o processo de reconhecimento e titulação de suas terras. "
...
IHU On-Line – Como a senhora define a relação que os quilombolas têm com a terra? É uma relação semelhante a que os índios têm?
Elsa Avancini – Essa questão já foi pensada no Brasil através do Instituto Nacional de Reforma Agrária que, quando conduziu o reconhecimento das comunidades quilombolas e estabeleceu os decretos para o estabelecimento dessas comunidades, reconheceu aos indígenas as terras necessárias para sua sobrevivência e para produção de sua sobrevivência. Às vezes, as comunidades urbanas não têm mais como reivindicar em torno, pois o quilombo já está todo balizado pelas construções, pelo bairro que já avançou. Em outros lugares, as terras onde as comunidades vivem são necessárias a sua sobrevivência econômica. Essa interpretação me parece válida, não há por que termos uma legislação para os indígenas e outra para os quilombolas.
Em março de 2008, tínhamos no RS 182 comunidades identificadas e com 35 processos abertos, ou seja, há uma grande quantidade de comunidades aqui no estado. A Constituição de 1988 e o decreto 4887 permitiram que essas comunidades procurassem auxílio. Como elas não tinham apoio algum, as comunidades pobres e negras iam aos cartórios, onde eram mandados de uma repartição a outra, e não conseguiam reconhecer seu espaço. Isso tornou a luta muito mais difícil.

IHU On-Line – Como o meio que os quilombolas buscam construir pode ser um exemplo da ecologia dos saberes e da participação popular?
Elsa Avancini – Em especial, a comunidade Chácara das Rosas, onde eu fiz entrevistas, tem uma memória do meio ambiente local muito intensa e bonita, relembrando traços do espaço que hoje são diferentes. Hoje, essa área é urbanizada, e os arroios, em parte, estão canalizados. Por outro lado, essa mesma comunidade tem participado do projeto Arroio Araçá, Nosso Rio Guri, além de ajudar nas ações de limpeza do arroio e participar no sentido de preservar o meio ambiente, a fauna e flora da cidade.
...
Para ler a entrevista na íntegra acesse Rede de Educação Cidadã:

domingo, 16 de agosto de 2009

Nascente do Araçá na 16ª Romaria das Águas

Neste lindo sábado de sol representantes da comunidade canoense e visitantes, tais como: escolas, igrejas, terreiros, poder público, sindicato, ongs e demais segmentos, reuniram-se para a coleta das águas em nascentes para o lançamento na cidade da 16ª Romaria das Águas na Bacia do Guaíba, com o espírito de união que a natureza necessita para seu cuidado.
Canoas estará participando pela segunda vez com águas de suas nascentes, ambas do Arroio Araçá, coletadas na Fazenda Guajuviras e na Fonte Dona Josefina.
as fotos estão postadas no álbum do Araçá no Picasa (link ao lado)

sábado, 15 de agosto de 2009

Canoas é rodeada de águas

Canoas é rica em águas, é rodeada de águas.
Essas mesmas águas que inspiraram seu nome.
Com as cidades vizinhas são assim seus limites:
Esteio - Arroio Sapucaia
Cachoeirinha - Arroio da Brigadeira
Nova Santa Rita - Rio dos Sinos
Porto Alegre - Rio Gravataí
Além disso possui arroios que ainda estão sendo conhecidos pela população:
Guajuviras, Passo do Nazário, Araçá...
Enquanto outros já foram cobertos.
Há a histórica Fonte Josefina. Hoje só uma lembrança.
Há os açudes que se extingiram como, por exemplo, o da Vila dos Fernandes e do Residencial Alta Vista.
Há o açude que ainda resiste em chácara particular atrás do Hospital N.S. das Graças.
E deve ter havido muito mais, que não conhecemos.
Nossas águas.

Água de todos.
Ela não tem fronteiras, é recurso comum.
O Rio é de Oxum.
O lago é de Oxum, Águas de Oxum...
Águas da cachoeira, águas de Oxum...
Água cristalina, água de Oxum...
Canoas é de Oxum.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Coleta na nascente do Arroio Araçá


Estaremos realizando no dia 15 de agosto próximo (sábado) uma coleta simbólica de água na nascente principal do Arroio Araçá, dentro da Fazenda Guajuviras, iniciando em nosso município as atividades da 16° Romaria das Águas.
Este movimento de alerta sobre a água terá sua culminância em outubro com o ritual de mistura das águas retiradas das nascentes de rios e arroios que ajudam a formar o lago Guaíba.
Sabemos da urgência de ações concretas em defesa de todos os recursos hídricos, e que cada nascente, arroio e rio são fundamentais para a qualidade e quantidade de água disponível para todos os seres vivos.
Neste dia contamos com a participação de todos, pois esta deve ser a luta de uma sociedade consciente quanto a mudança comportamental com relação ao meio ambiente, necessária e urgente.
Se você pode participar entre em contato através do endereço abaixo.
arroioaraca@terra.com.br

Coleta em 2008 na 15ª Romaria das águas

sábado, 18 de julho de 2009

CRIME AMBIENTAL E ARROIO ARAÇÁ

Sob a orientação do professor Otomar Teske

alunas da disciplina de Sociedade e Contemporaneidade - ULBRA/Canoas

realizam um trabalho de análise sobre as condições do Arroio Araçá.

Águeda Cardoso de Aguiar da Costa
Fabiana Nunes da Silva
Fernanda Raupp Batista
Márcia Ávila Santos
Vanessa Vargas


CRIME AMBIENTAL E ARROIO ARAÇÁ

DOIS CAMINHOS QUE SE CRUZAM.


Resumo
Meio Ambiente é um assunto muito abordado pela sociedade contemporânea, a questão de preservação e conscientização esta muito presente. A palavra natureza tem um importante significado, pois é o conjunto de todos os seres que formam o universo, essência e condições próprias de um ser, então não é possível lhe colocar em separado, pois fazemos parte dela como um todo.
Os movimentos sociais em defesa do meio ambiente tiveram maior expressão nos anos sessenta na Europa, Estados Unidos e Japão. No Brasil estes movimentos tiveram início na década de setenta, no estado do Rio Grande do Sul em 1971 foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapam), que travaram varias lutas importantes em prol do meio ambiente e é responsável pela elaboração de diversas leis que protegem o meio ambiente. De vários movimentos destacamos para abordar neste trabalho o Projeto Ambiental Arroio Araçá: Nosso Rio Guri, para deter nosso estudo de crime ambiental e sociedade.

Introdução
Por meio deste trabalho com assunto principal o crime ambiental, destacamos o movimento em prol do Arroio Araçá, que foi desenvolvido com o objetivo de alertar a população sobre a poluição e a constante contaminação dos mananciais da cidade. Um grupo de educadores de Canoas/RS desenvolve este projeto. Através de pesquisas buscam mostrar a importância para a sociedade deste bem natural. Objetivando identificar o crime ambiental que se aplica, sendo ele a poluição de qualquer natureza em níveis que possam causar danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais, ou a destruição significativa da flora, este último se aplica no caso do Arroio Araçá, pois a água é um elemento indispensável a toda e qualquer forma de vida. Sem água é impossível vida, entretanto estas afirmações não sensibilizam muitas pessoas e comunidades de forma que estas possam proteger e preservar a água. Para alcançar nossos objetivos entrevistamos a Sra Inês Pacheco, integrante do projeto Ambiental Arroio Araçá nosso rio guri, para que possamos compreender em âmbito maior a relação da sociedade, o arroio Araçá e identificarmos o(s) crime(s) ambiental (is).

O Crime ambiental, Arroio Araçá e a sociedade contemporânea
O crime ambiental em si é considerado causador da poluição de qualquer natureza na qual possa afetar a saúde humana ou mortandade da fauna e flora. Diante disto não temos uma legislação clara e rígida. A pena para o crime é de um a quatro anos e multa, mas na maioria das vezes aplica-se somente a multa.

Da legislação podemos citar:
- lei 9605/98 Seção III

Art.54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que possam resultar em danos à saúde humana, o que provoquem a mortandade de animais ou destruição significativa da flora:

1°. Se o crime é culposo:

Pena – detenção, de seis meses a um ano, e multa.

2°. Se o crime:

III – causar poluição hídrica que torne necessária a interrupção do abastecimento público de água de uma comunidade.

V – ocorrer por lançamento de resíduos sólidos, líquidos, gasosos, detritos (óleos substanciais oleosas) ou sólidos, em descasos com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos:

Pena – reclusão, de um a cinco anos.

A vez do cidadão
“ Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem como o uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preserva-lo para as presentes e futuras gerações”.
(Constituição da República Federativa do Brasil – artigo 225)

Tendo em mente o que é um crime ambiental colocado pela constituição, vamos destacar os acontecimentos no Arroio Araçá e o projeto para que possamos analisar.

O arroio Araçá parte da Fazenda Guajuviras localizado na cidade de Canoas, Rio Grande do Sul. Devido a grande implantação de empreendimentos começa a preocupação quanto a questão ambiental e um grupo de professores e moradores foi visitar o percurso do Arroio dando origem ao projeto que iniciou entre os anos de 2005 e 2006, conforme podemos observar em uma reposta a um questionamento sobre a origem do projeto e sua própria integração dentro de nossa entrevista para com a Sra professora Inês, que é Orientadora Educacional, Supervisora Escolar, Articuladora do Projeto:

“Eu sempre trabalhei fora da minha cidade e não participava das questões locais. Em 2000 passei a estudar a ‘ecopedagogia’ quando iniciei a pós-graduação, trabalhando meio turno. Voltei meu olhar para as questões locais e observei que ao lado de minha casa corria um arroio que a maioria dos vizinhos não haviam notado ou achavam que era um ‘valão’. Passei a pesquisar e criamos um grupo de professores e moradores que foi visitar seu percurso. Daí nasceu o projeto entre os anos de 2005 e 2006.”

Dento do projeto ocorreram vários movimentos ambientais para a preservação do Arroio Araçá e a conscientização da população. Antes do início das obras para a implantação do Distrito Industrial na Fazenda Guajuviras ocorreu uma reunião do qual um representante do SEMPA tranqüilizou o grupo colocando que o projeto de construção prevê um muro de proteção respeitando a margem que requer a lei, começaram as obras em março de dois mil e oito. Nesta mesma época o projeto começou sua participação da 15° Romaria da Águas buscando sensibilizar a população da importância dos recursos hídricos e da biodiversidade da região. Neste período o projeto contribuiu para a construção de uma cartilha que auxiliasse na divulgação do movimento tão importante dentro da proposta da Romaria; articulou um mutirão de limpeza em oito pontos do Arroio Araçá; integrantes foram até a nascente e identificaram que o andamento da obra do Distrito Industrial na altura da estrada do Nazário adentrava pela fazenda. Nestes momentos o grupo fazia um círculo em volta do Arroio fazendo orações em um pedido de proteção a vida. Em novembro jornais da cidade passam a destacar, em manchete, notícias de denuncia de desmatamento exarcebado na fazenda. A obra foi embargada, no mesmo mês o grupo visitou o Arroio e identificou que o grande desmatamento atingiu inclusive a nascente do Arroio Araçá. Avaliando esta situação colocamos em uma questão para analisarmos desde já o crime ambiental, pois neste momento já havia o desmatamento excessivo da flora e o comprometimento de recursos hídricos:
Quando se fala na construção de um condomínio ou uma pavimentação se ressalta o lado positivo para economia, comodidade etc... Mas na questão ambiental focando estas construções em torno do Arroio Araçá há verificações das condições plausíveis partindo de órgãos responsáveis para verificando o meio ambiente e as consequências?
Em resposta a Prof Inês Pacheco nos traz a realidade:

“Não temos visto funcionar assim. Colocando a situação na Avenida Açucena, por exemplo, houve um rápido desmatamento no ano que passou. Não conseguimos atenção para o que estava havendo, uma vez que estava planejado ali mais um condomínio fechado as margens do arroio. Entrou nova administração e tudo já estava amarrado, andando, e a natureza já havia ido abaixo. Neste caso a lei das margens não tem eco. A população perde este espaço que é seu para o interesse privado. Vila Mimosa está nas mesmas condições. O banhado no Bairro Mato Grande foi aterrado muito rapidamente para virar terras com interesses imobiliários antes da chegada da Br 448, sem que a cidade ao menos se desse conta do impacto que foi causado.”

Continuando a sequência de fatos, a visita a nascente do Arroio resultou em relatório enviado aos jornais e em um protesto ocorrido no calçadão de Canoas em dezembro de 2008. Em âmbito como podemos observar para o desenvolvimento da economia vem sendo desconsiderado o meio ambiente, e isso em abrangência mundial. A cidade de Canoas é rica em banhados conforme identificação do projeto e não se dá valor aos bens naturais. Tais locais são aterrados inclusive com lixo e viram locais para a construção de habitação e empresas. Colocamos para Prof. Inês uma questão sobre a conscientização da população ou o reflexo do capitalismo, ela responde:

“O bem é um valor e esse valor se revela conforme os interesses e circunstancias. Qual o valor que temos dado a água que vem pura e gratuita? A água certamente é um bem comum, mas está sendo privatizada aos poucos sem que sociedade esteja se dando conta disto. Não nos damos conta quando poluímos diariamente e contaminamos a água que bebemos fazendo com que ela se torne mais cara para retornar as nossas torneiras. Não nos damos conta do lixo resultante de nosso consumismo que contribui para a problemática ambiental. Não nos damos conta que o cheiro ruim no arroio é de nossa responsabilidade e optamos por fechá-lo. Não nos damos conta quando uma nascente como a Fonte Dona Josefina está lá, abandonada, correndo risco de ser aterrada, e ainda, jorrando água cristalina e fresquinha. Isso é capitalismo individual e a água é que é má, porque fede, porque atrapalha, porque alaga ou porque falta, porque é cara, porque traz doenças...”

Conforme informações no blog “Arroio Araçá-Nosso Rio Guri”:
Ressalta a necessidade da preservação, do cumprimento da lei quanto a margem do Arroio, da preservação de um bem histórico e natural.

“Quanto maior a cobertura vegetal, mais tempo a água permanece sobre o solo, diminuindo a evaporação e aumentando a quantidade daquela que irá infiltrar-se e atingir o lençol. Esta relação entre processo de desenvolvimento e preservação ambiental em nossa cidade necessita de muita discussão. A situação está bastante acentuada pelo processo de degradação do ambiente, especialmente dos recursos água e solo.
Pode-se observar, por exemplo, com a urbanização da cidade, ao longo de seu trajeto, o Arroio Araçá está cada vez mais rodeado de residenciais, como atualmente vem acontecendo na rua Açucena. Em seus dois lados nosso 'rio guri' deve ter a atenção necessária para se verificar se está sendo devidamente respeitada a legislação quanto a metragem em sua faixa de domínio (30 (trinta) metros de largura, em ambas as margens), pois a terraplenagem esta iniciada. É importante salientar que além do valor natural existe o valor histórico dos locais em nossa cidade que não vem sendo observados. A exemplo da Fazenda Guajuviras, a Fonte Dona Josefina, outra nascente que alimenta o Arroio Araçá, e a mata nativa que a envolve, também estão descuidadas. O alerta que nosso projeto vem trazendo não é nenhuma novidade. Como consta em nossos arquivos o falecido professor Fernando Gosmann, nos anos 80, defendia ardorosamente a recuperação do Arroio Araçá questionando se a qualidade de vida da população valia ou não o investimento. Da mesma forma um grupo de trabalho do La Salle veio reunindo depoimentos de moradores da cidade para registrar nossa história pela voz do população, que resultou na série de livros 'Canoas: para lembrar quem somos': ‘...a formação e a evolução da cidade surgirá como obra de seus moradores...’”

O uso correto dos bens naturais é essencial para a coletividade, ou seja, a sociedade. Então o mau uso dos bens naturais não atinge uma porcentagem da população, mas a todos nós. Falar de sociedade contemporânea perante a conscientização ambiental é algo complexo, pois a informação é divulgada, todos nós sabemos da importância, por exemplo, da coleta seletiva, mas poucos a colocam realmente em prática. A questão da influência do sistema econômico, da praticidade e da comodidade pesa muito mais no conceito da população.
Com o processo de urbanização em prol da economia e da sociedade o Arroio Araçá vem sofrendo vários impactos: os aterros para a construção de loteamentos, a canalização do seu percurso, entre outras alterações neste bem ou patrimônio natural. A população não se dá conta da importância de um arroio, pois este está diretamente ligado ao dia-a-dia da população como “artéria” produtora de água que contribui para a formação dos rios. Este desenvolvimento econômico, com estas obras de loteamentos e pavimentações, está sufocando o Arroio Araçá e conseqüentemente a produção e vazão de água. É gritante a importância de manter este Arroio para a cidade de Canoas, é necessária a conscientização, a organização de grupos sociais como o PROJETO AMBIENTAL ARROIO ARAÇÁ: NOSSO RIO GURI. Este tipo de movimento precisa ser apoiado.
O homem tem em sua essência o egocentrismo e conforme estudo da ecologia profunda enquanto não sente a dor do desequilíbrio ambiental não toma consciência. É necessário apoiar, levar estas razões ambientais identificando o crime ambiental como a destruição gradativa da fauna e da flora, do arroio, além do impacto para humanidade em relação a água, que é fonte de vida para todos. E mostrar que os impactos já estão refletindo em toda a população e se faz necessário uma atitude imediata. “E não somente quanto me convém”.
A um novo questionamento à Sra Inês durante a entrevista tentamos buscar em sua reposta a relação entre capitalismo, crime ambiental e o Arroio Araçá. Ela reponde:

“Desde a muito na história do nosso país temos ‘leis para inglês ver’, pois elas existem, porém não são cumpridas. Tem ainda a questão da interpretação, por exemplo, no caso dos limites de matas ciliares, que são variáveis conforme a largura do curso d´água (córrego, arroio ou rio) - medido de margem a margem. Em Canoas a lei municipal deveria contemplar todos esses limites e não somente restringir tudo a 30 metros, necessitando ser revista pela câmara de vereadores. Ocorre que nosso município pode emitir licenciamento ambiental e, antes de qualquer construção, deve ser feito o estudo de impacto ambiental e apresentado o relatório de impacto. Ambos devem citar a existência de nascentes e cursos d´água e a largura média e os pontos de maior e menor largura, a fim de se garantir a preservação adequada. Isto é responsabilidade da Sec. Mun. Meio Ambiente e da Sec. Mun. Desenvolvimento Urbano e Habitação. Como é uma cidade de grande importância econômica e está recebendo grande investimento na construção de novas rodovias, Canoas passou a ser o ‘paraíso da construção civil do estado’ (destaque em capa do jornal Diário de Canoas em 2008). Isto faz com que a fiscalização seja considerada um empecilho para o crescimento. Infelizmente tais acontecimentos têm sido muito mais rápidos do que os resultados em defesa da natureza”.

E complementa em uma outra resposta sobre a influência do capitalismo:

“Um exemplo para esta questão, que mostra a relação e influência dos interesses econômicos nas questões ambientais, é o entrave dos Estados Unidos e Rússia para vigorar o Protocolo de Kioto, por colocar restrições na produção industrial a fim de estabilizar as emissões dos gases do efeito estufa. Falando localmente citamos a responsabilidade de empresários na mortandade no rio dos Sinos em 2006. As problemáticas ambientais estão diretamente ligadas com as questões econômicas e sociais resultantes do capitalismo”.

Identificamos no desenvolver deste trabalho que as agressões ambientais com construções de diversas finalidades é um crime ambiental para com o Arroio Araçá, mas antes de ser um crime tem impacto direto para com a população, pois se de um lado estão as obras que movimentam a economia, por outro lado destruímos o patrimônio natural de maior importância: a água. A destruição do Arroio terá um impacto tremendo nos rios no qual este Arroio tem vínculo comprometendo até mesmo o abastecimento de água na região. Sabemos que o interesse da classe capitalista, como mesmo o sistema, é a produção de riquezas e o lucro, e, encontrar um ponto de equilíbrio entre os interesses econômicos da cidade de Canoas para com o bem natural que é o Arroio Araçá é um grande desafio, mas a compreensão de que o Arroio Araçá é um bem público já nos traz um consenso, pois todos sabemos que devemos preservar o patrimônio público seja ele qual for. A reflexão se concentra na falta de sentido das atividades econômicas, visando o lucro, e organizações sociais, se continuarmos a destruir o bem que nos assegura a vida - a água. É necessário um desenvolvimento econômico variável, socialmente justo e sustentável em termos ambientais na cidade de Canoas, e para isso precisamos de leis protetoras do meio ambiente, que sejam postas em prática e que sejam punidas com eficácia. Precisamos identificar que os crimes ambientais cometidos para com o Arroio Araçá têm impactos sociais e é necessário que esta sociedade se coloque consciente e lute pelo direito dos bens naturais e não somente de seus interesses capitais. Que o governo local tome as suas devidas atitudes, pois cabe a ele significativa parcela de responsabilidade para uma nova mentalidade tanto o que se refere à utilização dos bens naturais via legislação dinâmica e evidente adequada, quanto ao estímulo fiscal para despoluição dos rios, dado o seu elevado custo de implantação. Não esquecendo que somos nós, a sociedade que escolhemos nossos representantes políticos municipais, estaduais e federais.
A despoluição é um investimento social, portanto, é da competência de órgãos públicos o seu cumprimento dentro do contexto de equilíbrio necessário para o desenvolvimento racional dos fatores econômico e social da cidade.

Conclusão
Concluímos que existe crime ambiental referente ao Arroio Araçá, já esclarecido durante ao desenvolver deste trabalho, apesar de não aparentar, tem grande impacto para a população, tanto no sentido da perda de recursos hídricos (no caso com aterramentos), quanto à perda da fauna e flora (com o desmatamento), igualmente na poluição (causadas por empresas e residências feitas em cima dos aterros e próximo ao que “restou do Arroio”) e não menos importante a perda um patrimônio natural. Há a necessidade de uma “visão” e interpretação do mundo de uma forma geral, não podemos apenas nos beneficiar de uma construção: não que o desenvolvimento econômico seja algo ruim, mas é necessário uma avaliação da perda dos recursos naturais e fazer uma espécie de comparação para ver o que é mais válido para a sociedade. Pois nenhum valor capital pode restaurar os bens naturais.
Resgatando a idéia de nossa introdução que na natureza estamos inclusos logo se excluirmos o bem natural, estaremos excluindo a nós mesmos.